Matéria
publicada no jornal O Estado de São Paulo, 15/04/2005 -
Caderno Zona Norte
Uma
caixa d'água cultural
Espaço
histórico é ponto de encontro de artistas e forma talentos
na
Freguesia do Ó

Parceria
e amizade - Carlos Relva, Márcia Brito, Mário
Pacheco e Isabel Cardoso (da esq. Para a dir.)
fundaram o ateliê, onde são vistos bonecos e obras por todos
os lados
Onde
havia água, hoje se vê arte
Caixa
d'água dos anos 50 recebe trabalhos de quatro formadores, que
ainda atuam em cursos comunitários
Freguesia
do Ó
Renata Gama
Toda
vez que a geógrafa Márcia Brito olhava para a torre da caixa
d'água que durante a década de 1950 abastecia a pequena Vila
Brito, na Freguesia do Ó, sentia uma grande vontade de
transforma-la em um espaço de arte. "Porque tem essa
cara. A caixa d'água é artística."
Mas
a idéia ficou incubada por quase 30 anos, desde que virou
moradora do bairro. Apenas em 2000 o antigo sonho se tornou
realidade. Foi quando Márcia , que havia deixado os mapas
para dedicar-se à pintura e ao artesanato, uniu-se aos amigos
e artistas plásticos Isabel Cardoso, Carlos Relva e ao irmão
Mário Pacheco para montar um ateliê que reúne diversos
estilos de arte - o Caixa D'água 33.
Os
três andares que um dia abrigaram, além do grande tanque com
água, o zelador responsável pela manutenção do
abastecimento na vila e sua família, de fato têm charme.
Grandes escadas de madeira fazem a ligação entre os
patamares, que hoje abrigam oficinas de gravura, escultura e
pintura.
Nem
parece que, um dia, o local já foi dispensa para material de
construção e moradia improvisada. "Tive de fazer uma
boa reforma nas janelas e piso", comenta Márcia. Mas
toda a estrutura foi mantida conforme o projeto original.
A
casa de frente também foi incorporada ao
"complexo", localizado na Rua João Siqueira Brito.
É ali onde Márcia e Mário vivem em meio a telas, pinturas,
esculturas e muitos bonecos artesanais, espalhados por sala,
cozinha e quartos. Todos os ambientes transpiram arte. E o
local funciona como ponto de encontro dos artistas e de suas
obras.
Cada
um segue uma tendência diferente. Márcia pinta telas geométricas
e cria bonecos artesanais feitos com fios e tecidos enrolados.
Mário Pacheco produz gravuras, por meio de técnicas que
aprendeu no exterior e adaptou para materiais alternativos,
incluindo papelão e vinil, além de criar esculturas em
argila. Isabel é a mais clássica da turma, fiel às pinturas
de telas, paredes e aquarelas. Já o publicitário Carlos
Relva prefere arte digital, mas também se arrisca nos pincéis.
Solidariedade
Como o ateliê é ligado à Rede Social da Freguesia
do Ó, freqüentemente os artistas são chamados para ensinar
crianças e preparar voluntários de entidades e escolas da
região para repassar as técnicas. Cursos para pequenos
grupos ou individuais também ocorrem na casa. Um dos alunos
mais ilustres de Márcia foi Leonardo Henrique Russel, de 23
anos. Ele perdeu a visão aos 17 anos, em conseqüência da
diabete, e aprendeu a produzir bonecos para ter uma atividade
já que havia saído da escola. "Ele começou a aprender
em um período em que estava muito mal de saúde."
Mas
a doença não impediu que o aprendiz dominasse a arte.
"Eu desenvolvi a minha própria técnica. Ela primeiro me
ensinou a torcer o arame e eu automaticamente fui fazendo de
um jeito mais fácil para mim. Até troco alguns
materiais."
No
fim do ano passado, ele resolveu vender parte dos bonecos e
arrecadou R$ 700,00. Ao todo, já produziu mais de cem
brinquedos. O resultado deixa a artista-plástica satisfeita.
"A minha função tem sido a de utilizar a arte como
forma de inclusão social", diz Márcia.
Parceria
também deve render série de livros infantis
A história: A amizade entre os artistas plásticos
deve gerar um segundo fruto em breve. Márcia, Isabel, Carlos
e Mário têm planos de criar uma série de livros infantis
intitulada Série Caixa D'água. Cada edição virá com
ilustrações de um artista. O primeiro volume, escrito por
Carlos Relva, conta as aventuras do personagem Eduardinho em
cinco histórias. Ele enfrenta figuras comuns ao imaginário
popular infantil, como o Homem do Saco, o Buraco Sem Fundo, a
Bruxa da Torre e o Homem do Mato. "Eram medos que eu
tinha", confessa o autor.
Todos
os personagens serão representados no livro por bonecos
criados por Márcia e serão fotografados. Os livros seguintes
terão aquarelas pintadas por Isabel, gravuras feitas por Mário
Pacheco e imagens digitais criadas pelo próprio Carlos Relva.
"Cada livro vai apresentar uma técnica diferente, mas
todos nós estaremos envolvidos em todas as edições." A
série ainda não tem data para ser lançada, porque o
trabalho também está em fase de negociação com editoras.
Com
jeito de interior, no bairro de uma só família
Casamentos eram entre primos, para manter posses dos
Britos
Freguesia
do Ó
Não é uma coincidência o fato de o ateliê Caixa
D'água 33 ter sido fundado por uma artista plástica de
sobrenome Brito, em uma rua e vila que levam a mesma denominação.
É que as 74 casas que ocupam cerca de 70 mil metros quadrados
da Freguesia do Ó foram construídas pelos irmãos José e
Luiz Siqueira Brito. Os pioneiros batizaram tanto a vila como
as ruas com nomes de integrantes da família.
O
conjunto, que ficou pronto entre 1955 e 1956, nunca deixou de
pertencer aos Britos. "Naquela época, os casamentos eram
entre primos, para que a propriedade continuasse entre nós",
explica o médico João Martins Sequeira Brito, de 60 anos,
filho de um dos construtores da vila. "Meu pai foi o
primeiro a contrariar a regra e casou-se com a filha do dono
da venda." Mas seus herdeiros mantiveram as propriedades
em família.
Até
hoje, as fachadas das casas mantêm o aspecto original. Como
todos os moradores são inquilinos, com exceção de quem é
da família, não podem reforma-las. Assim, a sensação de
quem entra no bairro é de ter parado no tempo.
Progresso
As casas que tomaram o lugar de uma antiga chácara
teriam sido construídas com o dinheiro do loteamento da Vila
Carolina, outra área pertencente aos Britos. O prédio onde
funcionava a antiga sede da fazenda hoje abriga a Escola
Antonio de Souza Penna.
Quando
o bairro surgiu, não havia rede de água e esgoto na região.
Para abastecer os moradores, foram perfurados dois poços
artesianos e construídas duas caixas d'água.
Cerca
de seis anos depois da fundação, o progresso chegou às
imediações. Os canos da rede de água foram para as casas e
os poços artesianos acabaram aterrados. As caixas acabaram
desativadas, mas nunca foram demolidas. • R.G.
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